Manipulação Genetica

Manipulação genética trás-nos vantagens como curas para doenças e maior produtividade em termos agrícolas, mas a que custo? Sendo a sociedade ocidental naturalmente burocrática, como estamos a beneficiar dos progressos obtidos?

Após ter lido o livro de Michael Crichton, muitas duvidas surgiram-me sobre os benefícios apregoados pela manipulação genética e seus adeptos. Mas começamos pelo inicio e exploramos as questões uma de cada vez.

A primeira vez que me lembro de ouvir falar de manipulação genética foi em sementes com o argumento de elas serem mais resistentes a pragas e com maior produtividade. Um dos maiores proponentes destas sementes alteradas foi uma empresa americana que produzia pesticidas. As sementes mais tarde tiveram o pesticida incorporado nos seus genes. Um dos problemas que surgiram foi que as plantas (trigo, milho, etc) já não produziam sementes viáveis. Ou seja, os agricultores tem que comprar novas sementes em cada ano para serem plantadas. Isto tornou-se um negocio tão rentável que esta empresa agora controla 90% das sementes Norte-Americanas. Outro problema foi a propagação das sementes e suas patentes. Se um agricultor estiver a utilizar no seu campo esta semente, é natural que, por meio do vento, algumas destas sementes se propaguem para campos vizinhos. Sendo estas patenteadas os vizinhos podem ser processados por uso indevido e infracção da patente. Na maior parte dos casos os tais vizinhos fazem acordos com a empresa detentora da patente e passam a utilizar as sementes alteradas. SE quiserem aprufundar este assunto aconselho a que aluguem ou comprem o documentario Food Inc.

Com o sucesso da manipulação genética do mundo vegetal, passamos para os animais. Os casos mais mediaticos foram os clones tais como a ovelha Dolly mas estes casos são apenas a ponta do iceberg. Vejam o caso mais recente em que o FDA (Food and drug administration) dos Estados Unidos esta prestes a aprovar para comercialização um salmão transgénico.Isto levanta logo algumas questões preocupantes.  O que acontece quando espécies transgénicas são “acidentalmente” libertadas? Se o transgénico for mais forte, poderá a espécie original ser extinta? Existe algum limite na manipulação dos genes? Por exemplo, se antibióticos forem incorporados nos seus genes, que efeitos poderá ter nos humanos que os consomem? Claro que toda esta area é nova, sem nenhuns dados reais (apenas dados empíricos e simulações de computadores) logo não há maneira de saber que genes alterados poderão ter efeitos nefastos para o ambiente e a cadeia alimentar.  No caso dos salmões alterados, temos na base genética o salmão atlântico com genes do salmão “chinook” do pacifico com um crescimento substancialmente mais rápido.

Se o salmão transgénico for solto, pode outras espécies serem criadas? Para que fins podem genes ser criadas? Os fins mais solicitados tem a ver com resistência, crescimento e procriação. No entanto existe outras áreas.  Por exemplo, imagina gaivotas vermelhas com o padrão da vodafone nas suas asas. A publicidade no meio natural será uma corrida desenfreada por parte do pessoal de marketing. Diz o leitor:”não é possível por símbolos em pêlo ou penas” mas engana-se caro leitor! A natureza já o faz como demonstra a zebra, pavão, arara ou periquito. É apenas uma questão genética. Vejam o caso do guppy (peixe de aquário) florescente que brilha no escuro. Já estão a ser comercializados! Portanto este cenário não é tão improvável como o leitor possa inicialmente ter pensado. Imagine tartarugas marinhas com o símbolo da HP ou leões azuis na savana com o logótipo da Peugeot.

Com cada novo gene descoberto é feito uma patente. O interesse comercial torna-se o motor principal da descoberta cientifica. Isto torna-se particularmente preocupante no caso do genoma humano, que já esta completamente mapeado, e cerca de 20% esta patenteado. Há empresas que proíbem qualquer entidade ou universidade de desenvolver estudos sobre o seu material patenteado. A corrida ás patentes pode mesmo estar a limitar descobertas e avanços científicos. Antigamente havia uma clara diferença entre pesquisa feita em universidades ou empresas. Cientistas a trabalhar em laboratórios como o MIT publicavam livremente suas descobertas. Na década de 90 os Estados Unidos alteraram as leis que regem patentes e permitiram cientistas universitários possam patentear suas descobertas. Temos então pesquisa que é financiada pelos contribuintes americanos e as descobertas são depois patenteadas pelo cientista em proveito próprio. Cientistas e professores no ramo da genética agora são accionistas de empresas no ramo biomédico e guardam religiosamente qualquer descoberta na expectativa de maximizar os lucros.

A derradeira manipulação será humana. Consta que existe clínicas no Brasil que, pelo preço certo já manipulam genes para que seu filho tenha olhos azuis, cabelo louro ou outra alteração física. Claro que, se esta pratica realmente existir é altamente ilegal mas uma pergunta surge; se estamos a alterar os genes dos nossos filhos (ilegalmente ou não) porque não dar-lhe outras vantagens em relação aos seus concidadãos, como uma inteligência superior, menor probabilidades de cancro ou doenças cardíacas, mais alto e sem obesidade, um sistema imunitário mais resistente, aptidão superior para o desporto como ser ambidextro. Se tudo isto for implementado, não terá esta criança maiores possibilidades de sucesso no mundo?  Estas crianças iriam tornar-se lideres e pessoas de renome e iriam incentivar ainda mais esta pratica. Mas, e as pessoas que não tem posses para o tratamento e concebem seus filhos da forma natural. Serão seus filhos, asmáticos, diabéticos, etc, condenados a ser cidadãos de segunda? Todo este argumento gira á volta do dinheiro (como a maior parte das coisas relacionadas com manipulação genética) e, embora pareça ficção hoje, daqui a 10 anos poderá ser uma realidade perigosamente real tal é a velocidade com que tem evoluído a manipulação genética.

6 comentários a “Manipulação Genetica”

  1. Acho que a manipulação genética é uma consequência da falta de algo com que ocupar o tempo de uma parte da comunidade cientifica.

    Talvez seja um pouco rispida na minha opinião, mas a verdade é que não consigo encontrar beneficios na manipulação genética. Ainda que, no ultimo cenário referido, pudessemos tornar um ser humano mais inteligente, mais saudável ou mais apto para desportos de alta copetição, isto retirar-lhe-ia qualquer mérito individual. Imaginemos o seguinte cenário:

    Um jovem que quer ser médico mas que provem de uma familia com poucas posses monetárias ou com um entorno social e emocional debilitado. Este jovem deverá estudar mais que os seus colegas, deverá lutar mais para ultrapassar as adversidades causadas pela falta de condições económicas e possivelmente adaptar-se ou criar uma nova rede de apoio emocional (amigos, por exemplo), caso tenha uma familia destructurada. Se este jovem conseguir, apesar de todas estas adversidades, ser médico e ter alguma estabilidade económica, não será ele possuidor de um mérito muito maior do que um jovem na mesma situação que ele, tenha recebido uma “injecção” de inteligência?..

    A manipulação genética vem alterar o principio da lei do mais forte, o que faz com que deixe de haver razão para dar-mos o nosso melhor e como tal, origina que deixemos de valorizar as metas e objectivos conseguidos, tendo em conta que pouco ou nada tivemos de batalhar para os conseguir.

    Quanto ás doenças que poderão ser resolvidas com manipulação genética, também muitas delas (não todas claro) poderão ser resolvidas ou dimuidas adaptando um estilo de vida mais saudável. Parece-me uma solução exageradamente fácil para muitas das doenças da nossa sociedade ocidental, como excesso de peso, tensão arterial elevada, colestetrol, etc.

    Em relação à manipulação genética de alimentos, a verdade é que só saberemos as consequências daqui a vários anos e possivelmente dentro de 3 ou mais gerações. Mas será que é mesmo necessário esperarmos para ver os resultados? Na minha opinião, basta recorrer ao senso comum. Queremos mesmo comer um tomate ou um salmão transgénico? Só esta idea deveria ser suficiente para que a rejeitassemos porque simplesmente não é algo natural.

    O grande calcanhar de Aquiles da espécie humana é a nossa falta de humildade para com a natureza e pensarmos que a podemos utilizar para nosso bom proveito.

    A comunidade cientifica, bem como a sociedade em geral, deveria concentrar as suas energias em procurar activamente curas para doenças como cancro e leucemia, que ainda com todos os avanços de que dispomos na medicina, acabam por nos roubar muitos dos nossos ente queridos.

  2. Então, Laura. Concordo em parte com suas preocupações referentes à engenharia genética, mas discordo completamente sobre sua falta de necessidade.

    Realmente o ponto sobre o jovem médico é bem relevante. Possivelmente, a engenharia genética, nesse caso, traria vantagens apenas a quem porta-se de riquezas monetárias. Mas, ao analisar o caso de um jovem com melhoração genética, esse aprenderia muito mais durante sua vida do que aprenderia naturalmente. Não traria esse à comunidade científica e então, a sociedade civil em geral, teoricamente, muito mais benefícios provenientes de seu elevado QI? Outro ponto é que, com o desenvolvimento da pesquisa na área de manipulação genética, talvez ocorra o barateamento do serviço. Se isso ocorrer, poderá não afetar apenas uma pequena parte da população, mas sim grande parte dela.

    Entendo a questão ética envolvida, mas vejo muito mais benefícios sociais, incluindo a (bem) possível prevenção ou até mesmo cura de patologias como o cancro e da leucemia, como você mesma citou.
    Outro caso é, por exemplo, o veganismo, que tem défices protéicos. Se, uma diéta vegana, por exemplo, portar alimentos transgénicos ou OGMs (organismos geneticamente manipulados) que tragam uma maior carga de proteínas, suprindo esse défice, não seria esse um avanço?

    A discussão do que é natural ou não precisa ser melhor fundamentada. Afinal, o que é natural hoje na natureza? Qual a definição de natural? Todos os organismos estão em constante evolução, e suscetíveis à mutações ‘naturais’. Os vírus e bactérias, por exemplo, possuem uma taxa evolutiva muito elevada, estando muito mais suscetíveis à mutações do que os animais. Os homens possuem a capacidade científica, que acabou por criar uma possibilidade de aceleração evolutiva com a engenharia genética. Por que seria tão errado ‘encaminhar’ essas mutações aleatórias para um caminho que traga maiores benefícios à nós e ao planeta? E, por favor, não me venha falar de Deus.

    Existe ainda um longo caminho a ser percorrido pela engenharia genética. Muitos anos de estudo e aperfeiçoamento para seu pleno funcionamento. Assim como procedimentos médicos rudimentares, que eram muitas vezes equivocados, caminha a genética. Só peço paciência.

  3. Caro ou Cara D. Moura,

    Apresenta pontos válidos e não discordo de alguns deles. Na minha opinião a questão religiosa pouco ou nada tem a ver com o assunto, mas sim a questão ética. A manipulação genética até poderia trazer benefícios á espécie humana mas para isso, seria necessário que os seus propósitos não fossem corrompidos pela ganância, o que tendo em conta a natureza humana, acho difícil. Penso que apenas uma diminuta percentagem da população beneficiaria dessas curas, um grupo de privilegiados e não a grande maioria. Honestamente, espero equivocar-me e que caso a manipulação genética venha a ser prática mais comum, que acontecimentos positivos possam resultar disso.

    Quando á questão da alimentação, eu simplesmente não quero comprar nem comer alimentos manipulados geneticamente. É verdade que a noção de “natural” vai sofrendo metamorfoses cada dia e vai-se transformando, mas seja qual for o significado nos seus dias de hoje, na minha opinião, está muito longe de alfaces modificadas geneticamente.

  4. Concordo com a manipulação de genes para retirar doenças e defeitos físicos,se acreditamos que a humanidade precisa evoluir, a engenharia genética está no caminho certo.Imagine que seu filho pode ter a possibilidade de ter uma genética melhor,sem se preocupar com diabetes hereditário,vocês sabem quantas pessoas sofrem com esse mal no mundo?Seus efeitos e o destino que aguarda a todos que sofrem com esta doença?Concordo também que temos que moldar o ser humano tirando defeitos,pois para alguém que é discriminado e zombado por algo que não tem culpa é deprimente,essas pessoas precisam ter a chance de viver em verdadeira igualdade dentro da sociedade,o que eu citei aqui, são apenas alguns exemplos,a manipulação de genes pode ajudar ainda mais a humanidade.Ou será que a natureza faz alguns para sofrerem e outros não?

  5. Concordo com o que esta a dizer. O meu ponto no artigo foca sobre a questão da manipulação genetica como gerador de lucro.
    Se tomarmos a visão idealista sobre este campo, então sim, a manipulação poderá ajudar a erradicar algumas formas de cancro, doenças hereditárias, etc. No entanto, olhando para o nosso passado, incluindo a Grande Recessão, o Homem, vendo uma oportunidade de enriquecer, irá faze-lo sem considerção á Humanidade. Assim se explica que mais de 20% do genoma humano esteja patenteado.
    Decorre alias um caso flagrante que fundamenta esta minha tese:
    1- Na australia decorre um caso no tribunal que envolve uma patent sobre um gene relacionado com da mama.
    http://www.theaustralian.com.au/news/health-science/drug-company-defends-gene-mutation-patent/story-e6frg8y6-1226276389707

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